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Montalvo organizou-se basicamente em função de uma rua. Por ir directa da entrada à matriz, se lhe chamou Rua Direita e foi esse o nome que teve até 1893.Nessa altura, fizeram-se obras na rua, procurando endireitá-la e alargá-la em alguns locais. Um dos pontos em que ela era especialmente apertada situava-se em frente da casa da família Annes de Oliveira, a mais rica e mais poderosa de Montalvo. Vicente Ferreira, patriarca da família, resolveu ceder à Câmara, gratuitamente, uma faixa de terreno para que a rua pudesse ser alargada. E assim foi: como reconhecimento, o município deu à rua o nome de Annes de Oliveira, que ainda hoje se mantém.

A casa é fácil de identificar. Quem vem do lado de Abrantes e segue em direcção à matriz não pode deixar de notá-la, imponente e bela, do lado esquerdo da rua. É um solar setecentista, mandado construir pelo capitão-mor de Abrantes e cavaleiro professo da Ordem de Cristo, João Marques Ferreira e sua mulher, Ana Páscoa de Oliveira. Durante quase todo o século XIX, foi habitado por um descendente, o referido Vicente Ferreira Annes de Oliveira. Já no século XX a propriedade passou para a posse dos Themudo, um outro ramo da família. E seria um dos seus membros, a Senhora D. Maria de Serpa Pimentel Themudo, quem a doou à Diocese de Portalegre com o objectivo expresso de nela se instalarem as Irmãs Clarissas do Desagravo, seguidoras de Santa Clara de Assis.

O solar, a capela de S. João Baptista que lhe fica anexa e a propriedade rústica que as religiosas exploram em seu benefício foram, assim, transformados em Mosteiro da Nossa Senhora da Boa Esperança em 1980.

As Irmãs Clarissas levam vida de clausura e têm, por isso, pouco relacionamento com o mundo exterior. São, no entanto, acarinhadas pela população de Montalvo e continuam a abrir ao culto público a capela de S. João Baptista pelo menos três vezes em cada ano: nos dias do nascimento e do martírio de S. João (24 de Junho e 29 de Agosto) e em 15 de Agosto, quando a freguesia festeja Nossa Senhora da Assunção, sua padroeira.

As Irmãs Clarissas confeccionam uns doces conventuais, dos quais o Queijinho do Céu é o mais conhecido e muito apreciado, comercializados n’O Café da Praça em Constância

A capela de S. João Baptista foi construída na segunda metade do século XVIII para servir de templo privativo e panteão da família. Foi restaurada no século XIX e de novo beneficiada há poucos anos. É uma construção bem proporcionada, com um janelão superior, dando directamente para o coro alto, ladeado por dois nichos com imagens de S. Pedro e S. Paulo. O portal, por seu turno, tem de ambos os lados janelas de menores dimensões, fruto da última intervenção de que a capela beneficiou e que contribuem para dar maior equilíbrio e beleza à fachada.

 

O interior, de uma só nave, é quase todo ele setecentista: o retábulo, as pinturas, o silhar de azulejos, o tecto com o brasão da Ordem de Cristo a que pertencia o fundador da capela e os túmulos, alinhados frente ao altar, do mesmo João Marques Ferreira e de sua mulher e um terceiro, datado de 1778.

Na parede, do lado esquerdo da nave, uma placa, colocada no terceiro quartel do século passado, regista os nomes de todos os Annes de Oliveira que até então tinham sido sepultados naquele chão. Foi por essa altura que a pequena capela deixou de servir de panteão à família por já existir cemitério público em Montalvo, junto à Igreja, e a lei proibir os enterramentos no interior dos templos.

Para além das imagens do patrono e de Nossa Senhora da Conceição, dispõe a capela de uma interessante colecção de pequenas imagens em madeira, adquiridas em antiquários pelo proprietário da casa, Fernando Themudo. Representam S. Francisco de Assis, S. Domingos de Gusmão, Santa Ana com Nossa Senhora ao colo, S. José, S. Tomás de Aquino e Santo António e outras três, ainda mais pequenas, de Santo Hilário, Santo Onofre e S. Benedito que se encontram retiradas.

Não pode ficar sem menção, e menção muito especial, a pequena mas maciça imagem em pedra policromada, provavelmente do século XVII, representando Cristo na sua paixão, cheio de chagas, sentado, em atitude de quem espera, conformado, aceitando com resignação o sofrimento em que está. Chamam-lhe Senhor da Paciência e bem posto lhe foi o nome. Diz a lenda que era da paróquia a imagem e que teve o povo de a enterrar quando por cá andaram os franceses dos exércitos de Napoleão, para que escapasse à destruição e à cobiça da soldadesca. E escolheram-se as terras dos Annes de Oliveira, tidas por mais seguras, para servirem de esconderijo à mais querida das imagens de Montalvo. Foram-se embora os franceses e correu o tempo depois deles, esquecendo o povo o sítio certo onde tinha enterrado o Senhor da Paciência. Até que um dia, por acaso ou desígnio divinal, andando alguém a revolver a terra, calhou dar com uma pedra maciça, não uma pedra qualquer mas ela mesma, a imagem do Senhor da Paciência. E, por ter sido achada em terras da quinta, foi posta na capela dela e lá ficou até hoje.

In: http://estrelapolar.no.sapo.pt/Mosteiro.html

Para visitar o Património, Paisagem, Testemunhos Históricos de Constância, sugere-se uma estadia de alguns dias.
igreja Nossa Senhora dos Mártires

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